
"Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia mais." (José Saramago)
Fiquei um tempo pensando em compor um novo "E agora José" (de Carlos Drummond de Andrade) em menção ao José Saramago que nos deixou prematuramente, perguntando-lhe - como se ele pudesse responder - como ficaremos sem seus artigos, obras, e principalmente tiradas ácidas. Sim, prematuramente, pois apesar dos seus 87 anos, ele ainda tinha muita coisa a nos dizer. Fico devendo, pois simplesmente por mais que me esforçe não possuo qualquer dom poético, então homenageio em prosa.
A coragem Saramagueana a enfrentar com ironia clérigos pedófilos, a moral e os dogmas cristãos, desigualdades sociais, a aversão ao ateísmo e ao agnosticismo, o latifúndio, o imperialismo e toda e qualquer injustiça, cativa qualquer pessoa progressista sensata. Por mais que, como qualquer pessoa racional e imperfeita, tenha errado na análise de algumas questões pontuais, é impossível condená-lo como um todo pois seu conjunto geral é simplesmente soberbo para o temor das cacalhadas.
Os covardes do Vaticano estão em festa, e tratam de criticá-lo duramente depois de sua morte, mas pouco fizeram isto durante a vida já que hienas carniceiras que são sabiam que as respostas viriam às alturas. Pois bem, preferem o maldizer ao pensamento do escritor morto e a continuidade do ato de tapar o sol com a peneira quanto aos milhares de escândalos de pedofilia entre os seus, atribuindo o dolo subjetiva e simplesmente ao diabo ([ironia]muito bem[/ironia], senhor Ratzinger).
Festejam também a Aracruz Celulose, as multinacionais da água como a Suez e a Vivendi, os verdadeiros narcotraficantes colombianos abençoados por Uribe, a bancada ruralista de nosso país, assim como o deputado Mário David - o qual declamou que Saramago deveria renunciar à cidadania portuguesa pois se sentia "envergonhado" (sic) de tê-lo como seu compatriota. Eu por minha vez sinto muita pena por ele não ter sido brasileiro, pois temos que aguentar José Sarney, Paulo Coelho, Jô Soares, e outras mediocridades já na Academia Brasileira de Letras ou loucos para entrar nela.
Enfim, as escórias pensam "ainda bem, já foi tarde esse incendiário!", e cada vez mais tratam de suprimir as classes sociais mais baixas, de onde Saramago fora oriundo. Em contrapartida, lamentamos o adeus do cavaleiro autodidata imortal lusitano, lusitano este que emanava internacionalismo e atualidade. Acho que eu daria um pedaço do meu mindinho para ter uma prosa com o velho em sua biblioteca na ilha de Lanzarote. Vamos sentir saudades, valeu Saramago!
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