sábado, 21 de agosto de 2010

Minha Saga em Cuba - parte 4

Faz tempo que não escrevo. Na verdade fiquei em outras funções. Mas agora continuo com minha saga em Cuba.

Houve um dia que o congresso não tinha muita coisa, apenas algumas palestras interessantes espaçadas. Então resolvi voltar para a Havana Velha (La Habana Vieja) para comprar livros. Eram lugares mais visíveis, para turistas comprarem, mas ainda assim era muito barato. Caso eu explorasse mais, como pude conferir depois, eu acharia vários livros ainda mais baratos porém não estava com saco. Entrei num táxi e me mandei para a rua Obispo, um dos lugares em que estive com os estrangeiros, a fim de perguntar sobre livros e comprá-los.

Não se tratava de quaisquer livros. Eu queria livros de Luis Rogelio Nogueras, um autor da literatura cubana, já que era um pedido especial de Lina - uma colombiana muito especial que não esteve em Havana, e a quero muito - pois é estudante de literatura da Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá. Na Colômbia não se acha esse autor, segundo ela nem mesmo em bibliotecas públicas, e os poucos que hão em bibliotecas particulares é porque o dono da biblioteca aproveitou uma viagem à Cuba para adquirir.

Saindo do táxi, me dirijo à rua Obispo e sou recebido por um cubano alegre, que rapidamente segura minha mão e me metralha frases num inglês horrível que pouco pude entender além de "Nice to meet you". Apertava minha mão intencionalmente forte para que eu não fugisse. Ele jurava que eu era estrangeiro: biotipo diferente, bermuda jeans e tênis moderno o fazia desconfiar disto. Com olhar ríspido o respondi com um "Hola", e ele levou um susto. A entonação do meu espanhol num primeiro momento é sempre meio "mobral", mas depois de minutos de conversa ela fica imensamente elogiável para um estrangeiro neófito, pelo menos vários cubanos me confidenciaram isto e ficavam surpresos do tipo "Nossa, como assim? Você nunca entrou numa escola de idiomas para aprender espanhol? Não teve espanhol na escola como matéria? Nooosssa, você fala muito bem!". E como estava em Cuba há vários dias, meu traquejo na língua estava um primor, apesar de que verbos irregulares e preposições me traem, mas em todo o caso MUITO OBRIGADO, LINA, PELAS CONVERSAS NO MSN E SKYPE.

Voltando ao assunto, o cubano levou tanto susto que largou minha mão e, talvez associando o fato com a minha aparência disse "Ahhh, español! Qué bién! Sí, eres campeón del mundo! Puyol, Valdez, Torres..." e somente respondi "No... No soy español..." e andava devagar para as barracas de livros. "Argentino?". "Mexicano?". "Panameño?". "Peruano?" "Ahhh, sí, claro, uruguasho!". "Argentino, Paraguayo, Colombiano?". E todas estas perguntas eram respondidas por um seguido "no", e emendei que caso ele adivinhasse meu país eu dava para ele 1 CUC, pois sabia que o que ele queria de mim era dinheiro... Mas que se não adivinhasse não levava nada, e que poderia tentar 5 vezes. Tentou com Chile, Venezuela, Bolívia, e mais uns quatro países da América Central (sim, passou de 5 tentativas). Então falei "Erraste! Soy de Brasil! Y no ganaste nada! Adiós!" e saí andando rápido.

Nas barracas de livros pedi o autor que queria, e foram me mostrando... Cada vez mais queriam me empurrar mais livros, mas comprei só três, os três mais bonitinhos... Havia uma bandeirinha do Brasil numa barraca, perguntei a razão da presença dela e eles falaram "Ah, gostamos muito do Brasil aqui, quase todos torcemos pro Brasil no futebol, é o nosso país quando o assunto é futebol, é o país pelo qual nos sentimos representados. Além do mais, os brasileiros são um dos únicos turistas que não nos tratam como lixo, eles são legais e tratam a gente como irmãos". Como não sou bobo nem nada, nesta hora disse que perguntei da bandeira justamente porque sou brasileiro. Assim o assunto caiu pro futebol, garota de Ipanema, Rio, Kaká, Lula... Enfim, só estiquei o assunto sobre o Lula, paguei os livros (não só os de Luís Rogelio, mas também o Diário do Che na Bolívia), e então um livreiro me mostra uma pilha relativamente grande de livros dizendo "Se você tiver uma camisa da Seleção Brasileira, qualquer camisa, isso tudo é seu". Mas eu não tinha camisa... E acho que meu limite de peso explodiria. Agradeci, e voltei para o local do congresso.

No local do congresso me inscrevi para o exame de proficiência do nível C1 de esperanto junto ao "Common European Framework for Reference for Languagem (CEFR)", conhecido no meio esperantista como "Komuna Euxropa Referenc-kadro por Lingvoj (KER)". Aí eu e meu amigo Roger (fanático pelo SPFC) batemos um papo sobre futebol com um senhor cubano que é escritor, e incrivelmente era um entusiasta das bolas rolando e viu o Pelé jogar diversas vezes, sendo este Pelé o melhor do mundo de todos os tempos segundo ele. Discordei, disse que Zico foi o melhor, por ter sido mais completo apesar de ter feito bem menos gols. E começamos uma discussão intransigente (eu olhava pro Roger e ria, pois eu discutia mais por ver a seriedade de argumento dele, o contrariava tão somente por prazer, apesar de que sim, prefiro Zico ao Pelé). Mas por fim falei "Moro em Santos, seu endereço está na relação de membros do congresso, te mandarei uma camisa comemorativa do Pelé, ou pelo menos uma do Santos... Mas depois te mando outra melhor ainda, do Zico!". Pronto, ficamos amigos e ele me referia como "o senhor Zico", "Sinjoro Zico" em esperanto.

De noite, mais uma esticada num bar de um hotel onde estava a maioria dos jovens do congresso. Aí aparece um monte de meninas cubanas, sabendo que somos brasileiros, e disseram "POR FAVOR, CANTEM ZEZÉ DE CAMARGO E LUCIANO! AQUELA 'É O AMOR', POR FAVOR, POR FAVOR, POR FAVOR!". Explicamos que era impossível, pois além de sermos ruins no canto nem mesmo sabíamos a letra e recebemos o rebate de "MAS COMO VOCÊS, QUE SÃO BRASILEIROS, NÃO SABEM?". Explicamos calmamente que se tratava de uma música do início dos anos 90, éramos muito crianças, e que era uma música que não gostávamos muito e "COMO? COMO VOCÊS PODEM NÃO GOSTAR DESTA MÚSICA, ELA É LIIIINDAAA". Claro que é linda né, elas não falam português para entender a letra de corno manso dela... ¬¬

Aí para ferrar com o cu do palhaço um cubano apareceu com a letra desta música, um papel carinhosamente guardado entre uma página e outra de um caderno de música. Era uma letra escrita à mão, cifrada. Tá, já estavamos meio alegres devido a cerveja Bucaneiro, então cantamos... "ÉÉÉÉÉÉ O AMOOOOOOOOORRRRRR... QUE MEXE COM A MINHA CABEÇA E ME DEIXA ASSSIIIIII-IIIMMMM... QUE FAZ PENSAR EM VOCÊ E ESQUECER DE MIIIMMMMMM". Sério, as cubanas foram literalmente AO DELÍRIO. Umas quatro tiveram orgasmo. Sério! Mas ainda bem que ninguém nos filmou cantando para colcoar no Youtube, pelo bem da humanidade e da nossa honra... Mas em todo o caso, até o outro dia muita gente veio dizer "Olha, você cantou muito bem aquela música brasileira lá...". Coitados... Coitados...

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