quinta-feira, 11 de novembro de 2010

10/11/2010: Esperanto, TV Globo e Twitter

Eu estava em um dia normal de trabalho, até que em meu email recebi uma "trauletada" de e-mails - de uma lista de esperanto - que a TV Globo do RJ fez uma matéria sobre mais de 250 (se a memória não me trai) propostas de disciplinas no ensino brasileiro, e um destaque especial - até mesmo por parte do âncora - foi justamente para o idioma compilado por Zamenhof (devido ao Projeto de Lei apresentado por Cristóvão Buarque em 2008, já aprovado, e que agora tramita na câmara). Para os que não sabem, comecei a estudar essa língua em 2002, estou mais do que acostumado com a maneira como as grandes mídias a tratam como uma verdadeira "Geni". Fazendo uma alusão com a minha formação, geografia, quem não se lembra da "tia Maricota" do primário perguntando o que é uma ilha, e a classe toda quase em uníssono "É uma porção de terra cercada de água por todos os lados"? Pois então, o esperanto é uma porção de qualquer coisa cercada de pedras por todos os lados. E lá vem pedrada!

Pareço dramático, mas é a realidade. Muitas pessoas gostam de falar do esperanto sem conhecer, utilizando-se de falácias, para demonstrar erudição, com nenhum comprometimento com a pesquisa dos fatos - muitas vezes apelando-se até pro escárnio contra a língua.

O genial Claude Piron - psicólogo, ex-tradutor da ONU e ex-professor da Universidade de Genebra (Suíça) - foi genial em seu livreto "Reações Psicológicas ao Esperanto" ao comparar respostas sobre uma língua étnica pouco conhecida (escolham uma: maltês, frísio, romeno, catalão, quechua, sei lá) e o esperanto. Quase sempre as respostas para o primeiro é algo como "Olha, para ser sincero(a) não estou por dentro desta língua, portanto pouco posso falar", enquanto para o segundo vem vários disparates como "é falta do que se fazer!", "isso é delírio!", "isso não funciona!", "é uma coisa inútil", "é perca (sic) de tempo!", e por aí vai.

Ainda no trabalho fiquei sabendo de reações relativamente numerosas sobre o esperanto e a tag #esperanto. Talvez porque a pauta tenha se repetido no Jornal Nacional, apesar de não poder afirmar pois meu turno de trabalho é vespertino e noturno, mas de qualquer maneira a partir das 23h vi inúmeros comentários sobre o tema "esperanto nas escolas": alguns se interessavam, outros mostravam desinformação, mas vi muitas críticas, e as principais essencialmente eram:

1. O ensino brasileiro, principalmente o público, já não vai bem das pernas com as matérias que existem, imaginem então com a inclusão de mais uma;
2. Nas escolas brasileiras os alunos não aprendem nem mesmo o inglês e/ou o espanhol durante toda a vivência escolar, imaginem então dividir esse tempo de aprendizado de línguas com outra língua inútil (sic).

Pois bem, me sinto relativamente bem a vontade para discutir o tema "esperanto nas escolas" e rebater as críticas. Como esperantista, participei do Congresso Brasileiro de Esperanto em 2004 na cidade de Maceió-AL cujo tema era exatamente este, e mais outros quatro congressos brasileiros (2006, 2007, 2008 e 2009) e um mundial (2010, em Havana-Cuba), sou certificado nível C1 na língua segundo a escala CEFR devido a um exame da Universidade Eötvös Loránd (Budapeste-Hungria) que me submeti, logo posso dizer que conheço "um pouco" da realidade do esperanto. Por outro lado, estudei em escola particular e pública, tenho um tio ex-diretor de um colégio público, outro tio que é atualmente diretor de um colégio privado, sou professor de Geografia formado (na saudosa - por mim - Universidade Federal de Santa Catarina), tive algumas disciplinas pedagógicas na universidade, dei aula na periferia de Florianópolis em "EJA" (Educação de Jovens e Adultos), também dei dois cursos extra-curriculares de esperanto na própria UFSC, faço uma pós-graduação em Gestão Pública, e para finalizar hoje trabalho no setor administrativo... de uma escola! Destarte não posso dizer que sou uma virtuose da educação, mas também não sou um leigo que só argumenta no grandessíssímo "eu acho". Por favor, não quero aqui exercer uma falácia de autoridade com este minicurrículo um pouco acima do nível medíocre, estou tão somente me precavendo de certos comentários desqualificatórios. Então vamos lá.

"O ensino brasileiro, principalmente o público, já não vai bem das pernas com as matérias que têm, imaginem então com a inclusão de mais uma"
R.: Pois bem, o ensino brasileiro possui obviamente diversos problemas, mas que pouco têm relações com a quantidade de disciplinas. É claro que uma quantidade enorme de disciplinas implica numa igualmente enorme carga horária dentro da sala de aula, e consequentemente maior desgaste mental, mas o cerne da questão não é este, se ficarmos discutindo por essa seara vamos estar batendo boca sobre qual música a orquestra toca num navio de cruzeiro, mas o navio é o Titanic e está afundando. O ensino vai mal principalmente pela "proletarização" do professor, atualmente o professor não tem honra, não tem auto-estima, sofrem decréscimo real de salário, e nos nossos discursos reproduzimos este ponto de vista, o de que a profissão de professor não presta, que a docência é para perdedores. "Ah, que looser, vai ser professor!". Aí se criam cursinhos "Wallita" de licenciaturas (afinal, se a profissão é ruim, que pelo menos seja fácil para se conseguir o "deploma" né?) e tudo está legitimado.

O segundo motivo para a derrocada do ensino brasileiro é que não só os teóricos tradicionais (dou ênfase em Vigotsky, Piaget e Paulo Freire) não são levados em conta na prática da sala de aula, como os pedagogos quase nunca entendem como funciona os mecanismos do cérebro para a aprendizagem. O país com o melhor desempenho no exame internacional de PISA é a Finlândia. E por que? Simples, porque eles levam ao pé da letra "matéria dada, matéria estudada" no mesmo dia, lá as escolas são de período integral, de manhã os alunos assistem aula e de tarde lá cada um tem sua escrivaninha e eles estudam solitariamente. O ciclo de aprendizado nosso é DIÁRIO, acordamos e ao assistirmos aula colocamos todo o conteúdo no hipotálamo, e ao dormirmos passamos para o córtex o conteúdo mais fortemente fixado, e o resto é apagado. E como se fixa o conteúdo? Estudando sozinho. Imaginem que durante a aula um professor dá umas anotações pontilhadas e você tem que ligar os pontos antes de dormir, senão os pontos se acabam e quase toda a informação se vai. E como é o ensino no Brasil? "Assiste aula e dorme, assiste aula e dorme, assiste aula e dorme", e aí na semana de prova "Estuda, estuda, estuda, estuda, estuda, estuda, estuda...", quando na verdade cada dia deveria ser "Assiste aula, estuda, dorme". Quanto mais avançada é a série escolar, maior deve ser o tempo gasto no estudo solitário e menos deve ser o tempo gasto nas aulas expositivas. Porém, com um método de ensino certo ou errado, o esperanto pode ajudar como vocês verão agora.

Nas escolas brasileiras os alunos não aprendem nem mesmo o inglês e/ou o espanhol durante toda a vivência escolar, imaginem então dividir esse tempo de aprendizado de línguas com outra língua inútil (sic).
R.: Primeiramente, temos que ser críticos com a abordagem que se faz para o aprendizado do inglês (e não com o aprendizado em si). Por quê aprendemos inglês? Simples, não pela quantidade de falantes que o inglês possui, mas pelo poderio econômico e bélico que os países anglófonos têm. O chinês mandarim, por exemplo, desde quando me conheço por gente possui mais falantes que o inglês (apesar deste ter inegavelmente mais capilaridade), mas por qual razão os executivos de plantão estão correndo atrás da língua chinesa como se fosse ouro para os curricula vitarum? Simples, a China se despontou economicamente. Se fosse as Filipinas com sua língua tagalog (menos falada que o esperanto, por sinal), todo o resto do mundo teria que se curvar para o país do Kali e do Arnis de Mano e aprender sua língua. E a partir de quando uma língua étnica, nacional, criada expontaneamente, cheia de irregularidades na pronúncia e na sintaxe, se torna "internacional" por força do seu país falante, acontece uma falta de democracia, pois o país dono desta língua a tem como língua de berço, possui mais traquejo nela, os juris internacionais e as mesas de negociação passam a ser nesta língua, enfim, enquanto os outros arcam com o ônus, por isso é necessária uma língua planejada, regular, mais fácil de ser aprendida, com pronúncia fonética, e principalmente não deve ser oficial de país algum para que a língua e as relações internacionais por intermédio dela sejam as mais equidistantes entre um país e outro.

"Mas Felipe, entendo esse idealismo, legal, mas cara, estou precisando aprender inglês agora, preciso de um emprego melhor mas sem inglês na minha área NÃO VIRA, preciso ser pragmático. E as crianças que estudam agora estão no mesmo problema, elas precisam aprender inglês mesmo, e você vem com essa merda chamada de ... esperando? Ah não, esperanto, com T né, que seja... Pô, sem noção, heim?". Mas é justamente aí que o esperanto entra.
Houve uma pesquisa na Universidade de Paderborn que provou que o esperanto é uma língua propedêutica, ou seja, auxilia de uma maneira SURPREENDENTEMENTE FELIZ o discente em vários aprendizados, mas principalmente em OUTRAS LÍNGUAS. Parece paradoxal, mas uma das pesquisas consistiu em dividir alunos de inglês em dois grupos que foram pesquisados sistematicamente por 3 anos com direito a medição de desempenho. O primeiro grupo teve aula de esperanto no primeiro ano de estudos, o segundo teve aula de inglês; No segundo ano, o primeiro grupo teve aula de esperanto divididamente com o inglês, o segundo grupo se manteve firme no lindo idioma de Shakespeare; Até que no terceiro e último ano os dois grupos tiveram aula somente de inglês. Pois bem, parece paradoxal, mas o primeiro grupo obteve um desempenho superior em língua inglesa em relação ao segundo grupo. E esse tipo de pesquisa não existiu só em Paderborn, houve algo parecido numa universidade francesa cujo nome não me lembro (mas me perdoem, são 3 da matina!). O célebre pedagogo húngaro Laszló Polgár, pai das famosas enxadristas Judit, Susan e Sofia, além de autor do livro "Como educar gênios", inclui o esperanto na receita.

Aqui no Brasil conheço cinco escolas em que o esperanto é ensinado oficialmente: em Alto Paraíso-GO (a Fazenda-Escola "Bona Espero"), Rio de Janeiro (no Colégio Pedro II), Três Rios-RJ, Formiga-MG, Ubá-MG (destas três não me recordo dos nomes). Em todas o ensino funciona maravilhosamente bem. A Hungria, país cuja principal universidade reconheceu meu nível de esperanto, contém cursinhos de esperanto para entrar na universidade, lá esperanto é válido para o vestibular e por ser uma língua mais fácil ela está caindo nas graças do povo. Em suma, em nenhuma escola que conheci o esperanto foi tratado como algo inútil ou que atrapalhasse as outras disciplinas.

Segundo o projeto de lei criado para a modificação da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da educação é claro: tornar o esperanto como disciplina optativa no ensino médio, caso seja de interesse da escola e a demanda se justificar. Agora pergunto: qual é a polêmica nisso? Cada escola e suas respectivas comunidades não podem incluir o esperanto como matéria eletiva em seus projetos político-pedagógicos se assim achar conveniente? Oras, quem não quiser, não faz! Simplesmente não entendo o repúdio a isto, talvez até ocorra pelo fato de que as línguas planejadas mais atuais se deram mais para o lazer, como o qenya, o sindarin, o klingon, o na´vi, e por aí vai, mas mesmo assim me pergunto...

Pessoalmente sou da opinião de que deveríamos enxugar ao máximo as disciplinas obrigatórias, e permitir um grande leque de variedades de disciplinas eletivas: esperanto, latim, eletrônica básica, karate, antropologia, enfim, mas esse é um tema pra uma outra postagem. Estou aberto para as discussões mas, por favor, se informem antes sobre o esperanto, se não souberem encontrar fontes ou quiser questionar qualquer fala minha pedindo uma prova, é só dizer.

6 comentários:

Wiklich disse...

=)
saudade

Sersank disse...

Parabéns, Filipe!
Disse vc tudo o que eu gostaria de ouvir (ou de ler)nesta quinta, 11/11/2010: um comentário sério, abalizado e corajoso em defesa do Esperanto!!!
Vc tem grande futuro!
Vai em frente!
E que Deus te proteja!
Tio Sergio
Veterano esperantista
http://sersank.blogspot.com

Esperanto na Mídia disse...

Felipe, você é bem preparado para comentar o Esperanto. Também pudera, é esperantista e conhece o assunto por dentro.
Nós estamos trabalhando para desenvolver a economia esperantista. Arrume tempo para analisar esse aspecto e comentar aqui no seu blog

esperantomaceio disse...

Gratulon Felipe! Via argumentado estas tre bona.

É muito importante o projeto do Senador Cristovam Buarque, e A Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) - Lei 9.394 de 20/dez/1996 já dá margem para o ensino do Esperanto nas Escolas em seu "Art. 36 - III - será incluída uma língua estrangeira moderna, como disciplina obrigatória, escolhida pela comunidade escolar, e uma segunda, em caráter optativo, dentro das disponibilidades da instituição".
Mas o Brasil não será pioneiro nisso, pois o Esperanto já é ensinado em escolas e universidades de vários países.

Lu disse...

Olá Felipe!

Boa tarde! Gostei muito do seu comentário sobre o Esperanto, pois sou esperantista há muitos anos e amo esta língua. Eu espero que o Esperanto no Brasil seja mais divulgado e ensinado nas escolas como língua principal e não como uma língua secundária. Parabéns pelo artigo!

Spaco de V. disse...

Bonege, o texto foi muito bem desenvolvido! Desculpa a minha chatice, mas ainda falta fazer uma revisão final: "porquê" e "expontâneo"